Em quem você está pensando? Eu sei que não é em mim. Você é muito óbvia, e se se insinua tanto é porque não te importa, e todo esse veneno casualmente dirigido a mim não te quer dizer nada. Eu teria muito a dizer, por muito tempo, com e sem as palavras, em qualquer língua que você escolhesse. Mas você quer alguma coisa que eu não tenho. Alguma coisa que eu nunca tive desde o primeiro momento e não posso agora desenvolver, criar, aprender, comprar, fazer. E se suspeito que ele o tenha, tampouco posso roubar, imitar, nem mesmo destruir. Posso assistir, posso suspeitar, posso cronometrar seus olhares e me frustrar a cada toque recusado, a cada sinal detectado numa frase cortante voltada para mim, em cada pequena discórdia que pra você pode até não significar grande coisa, mas pra mim fede a rejeição tácita. Queria que concordássemos sempre, queria que sorríssemos diante da constatação de que somos apenas duas metades da mesma laranja.
Queria ser você – para saber o que você pensa, em quem você pensa, para te fazer me ver com os olhos da minha raiva, da minha paixão, e te matar de remorsos, e te atrair para mim, e te fazer precisar de mim como se precisa de água, e te rejeitar cruelmente para sempre, cultivando no fígado um amor desvairado e no resto do corpo a bílis amarga do meu orgulho ferido.
Posso medir o timbre da sua voz e analisar a sua escolha de palavras, a sintaxe dos seus movimentos, o fluxo dos seus sorrisos. Posso calcular distâncias, registrar suas relações, controlar rigidamente suas amizades, seus encontros fortuitos. Posso me medir com cada um deles e tornar patente aos seus olhos os defeitos que têm, ainda que no processo fique igualmente evidente minha vilania. Não me importa ser o vilão, você não me deixou escolha, me relegou a coadjuvante, que eu seja ao menos o mais deplorável deles. Que eu seja o rato odiado – antes isso que o pardal ferido de quem a audiência se apieda. Não quero a porra da sua piedade, não quero a porra da sua mão para beijar apenas – quero tudo, todo, o tempo todo e só pra mim, por inteiro e para sempre.
Não quero te ver por perto, mas não consigo ficar longe. Traço estratégias e tento me colocar no seu lugar com um mínimo de razão, mas me faltam os parâmetros, as coordenadas, as referências. Quero que sinta falta de mim, quero que me deseje por perto, que precise de mim como o bêbado de um banheiro. Mas, quando te encontro, o “olá” casual imola as cenas de beijos ardentes e olhares tórridos que eu vinha caprichosa e inconscientemente compondo desde que nasci. Estou simplesmente exausto. Cansado disso que acho que sinto por você. Quero começar de novo e impedir que minha gastrite atinja o coração, evitar que as cores da película fiquem tão saturadas. Quero te querer com doçura; quero um escudo de gelo, um gole maior de hipocrisia, quero estar acima das suas escolhas. Mas quero também que desabem os telhados e morram os pássaros e todas as coisas que me fazem lembrar você. E quero, porra, chorar – mas só se as lágrimas servissem para afogar esse monstro que você acordou dentro de mim.
by Bürn.
who else?
prrrrrr. I fucking miss you.
sexta-feira, 30 de novembro de 2007
Oração do ciumento ou Parece amor mas é só tesão ou Quem me dera ter você
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Um comentário:
Putz, bem lembrado, preciso te falar um treco hoje à noite. Vou escrever na mão.
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